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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Dias Assim (2)

1.
As pessoas continuam
a ter medo de deus,
mesmo que à semelhança
ou sem semelhança.
¡Inventaram-no agora
aguentem-no!

2.
Liguei a TV para ver o telejornal
Poucas notícias.
Imensa auto-promoção a programas
do mesmo canal.

3.
Ontem disseram-me:
«aguardo por instruções»;
a minha admiração vai
sempre para aqueles que aguardam
o que nunca chega.

4.
Nobel da (¿)literatura(?)
para: Louise Glück;
começam os discursos e depoimentos
da qualidade de tão importante figura
da escrita mundial, mesmo
quando ninguém a leu, existe
sempre alguém para a foto.

SN

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Dias Assim

1.
Hoje no correio electrónico:
¡Oferecemos amostras grátis de amplificadores auditivos!
¡Peça já a sua!
¿Estarei surdo e ninguém me disse?
¿Será que os espiões usam esta tecnologia
para ouvir melhor?

2.
Não chove hoje
como choveu ontem.
Ou talvez venha a chover hoje
como choveu ontem.
A chuva nada quer saber disto
e sempre que chove
caem gotas do céu que cristalizam
na memória de ontem.

3.
Frases que morrem
a cada palavra dita
a seu tempo.

SN

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A guerra a 50% de desconto

 

Numa livraria perto de si, a Segunda Guerra Mundial a 50% de desconto!

Eu, nem dada a queria!

SN

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

O homem de pé na areia quente do deserto

 

O sol envelhece os olhos do homem que permanece de pé na areia quente do deserto. O momento é difícil. O deserto é quente. Existe um lugar, um tempo. Penso nisto, depois de uma noite mal dormida. Inquieto, tento concentrar-me no silêncio e penso no cheiro dos pinheiros, que não existem nos desertos.

SN

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

«Catorze de Junho» na voz de José Saramago

 
 
«Catorze de Junho»

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.
 
José Saramago

(este poema pode ser encontrado, no livro/álbum “Nesta Esquina do Tempo”, de Luis Pastor)