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sábado, 15 de junho de 2019

A poesia e o poeta Fernando Esteves Pinto


A poesia é algo de intrigante e de misterioso. A sua existência é muito antiga e desde sempre existiu dúvidas quanto à sua própria definição. Algumas perguntas costumam ser pertinentes, nesta matéria tais como:

1. O que é poesia?
2. Para que serve a poesia?
3. Será que só alguns podem ou conseguem ser poetas?


Quem melhor do que os poetas para definir poesia? Talvez possam não ser as explicações exactas sobre o tema, porém, são sentimentos, desassossegos e também misteriosas afirmações sobre a escrita poética que fascina o homem.

Falamos com o escritor e poeta Fernando Esteves Pinto sobre a poesia:

(1. O que é poesia?)  FEP: Ainda recordo a minha primeira definição de poesia de quando era jovem: fechar os olhos para ver o mundo através do espírito. As paisagens, os objectos do quotidiano, e as pessoas, por exemplo, apresentavam-se-me diferentes do que realmente eram. As imagens dentro dos meus olhos fechados tinham outro significado; havia uma alteração da forma primitiva: isto é poesia, pensei. E quando eu meditava subterraneamente nestas coisas, a sedimentar a minha cabeça com estas imagens distorcidas, imperfeitas, quase diluídas da realidade, percebi que estava a penetrar num mundo cheio de versos; e eu acumulava-me de poesia.

(2. Para que serve a poesia?) FEP: A poesia serve para iluminar o que ainda não é límpido. E serve para conter o pensamento nos seus excessos artificiais. Só a poesia é capaz de suprimir a realidade que confere uma vida sem amplitude; uma vida sem transitoriedade. Escrever poesia é contornar a existência real, normal e quotidiana. Apenas uma nota final: a verdadeira poesia corta os laços com a trivialidade e com os sentimentos lustrosos.

(3. Será que só alguns podem ou conseguem ser poetas?) FEP: Ser poeta não é uma profissão, logo, não é actividade que surja por vontade súbita ou qualquer tipo de caprichos. Embora haja poetas que se sujeitam às regras do infinito vazio, da redutora solidão, do esgotamento silencioso (todos estes abismos), o resultado é a expressão de uma superficialidade poética afectada e desconsolável. A tentação de querer ser poeta ou arriscar escrever um poema faz erguer uma grande muralha. Mas não basta olhar apenas para a muralha: é preciso romper essa espécie de barreira e extrair dela toda a poesia. Mas só os grandes poetas se deixam soterrar pela muralha; e ainda assim continuam a escavar com extrema exaltação e modéstia.

Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais. Em 1990 recebeu o Prémio Inasset revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura. Em 1998 obteve uma bolsa de criação literária pelo Ministério da Cultura/Instituto Português do Livro e das Bibliotecas. Em 2016 Obteve o Prémio Literário Cidade de Almada, pelo romance A Caverna de Deus. É co-fundador do projecto cultural LÓGOS – Biblioteca do Tempo.

Livros publicados: Na Escrita e no Rosto (poesia); Siete Planos Coreográficos (poesia, edição bilingue, Huelva); Ensaio Entre Portas (poesia); Conversas Terminais (romance); Sexo Entre  Mentiras (romance); Privado (novela); Área Afectada (poesia); Brutal (romance); O Tempo que Falta
(poesia); Identidade e Conflito (micro-ensaios); Dispensar o Vazio (antologia poética); Património Bukowski (contos e outras estórias); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); Humanidade poesia); A Caverna de Deus (romance).


quinta-feira, 13 de junho de 2019

A poesia e a poeta Rute Castro


A poesia é algo de misterioso, que suscita dúvidas e algumas questões, tais como:

1. O que é poesia?
2. Para que serve a poesia?
3. Será que só alguns podem ou conseguem ser poetas?

Perguntamos à poeta Rute Castro o que pensa da poesia:

Rute Castro: (1. e 2.) “A comunicação, na sua forma mais pura, é livre das algemas de apenas uma veste, mais fiel aos sonhos, no sentido da possibilidade da desordem, mas essa aparente desordem é afinal de contas outra linguagem feita de tudo o que se mostra e não mostra, de tudo o que se sente dentro disso.  Talvez a poesia seja mais perto dessa espécie de tocar sem barreiras , e talvez por isso nos cause a vertigem , porque desde sempre o choque de nos sentirmos moveu, e o significado movimentou multidões. A poesia aproxima-nos dessa sensação, que é a liberdade de nos identificarmos e sentirmos de uma maneira mais profunda. Ao casarmos palavras, derrubarmos uma aparente ordem e criarmos formas mais íntimas de transmitir o sentido, ao juntarmos para fazermos a cor mais fiel ao nosso sangue, desequilibrando como a urgência da vida, a poesia dá-nos a sensação de impacto, a visão de abrir a luz da criação. Sabemos que o nascer é cheio de possibilidades infindáveis, evidenciar isto ao escrever, abre aqueles olhos internos e causa esse espanto. Mas também, claro, não haveria entendimento do que nos é dito, se não houvesse o raio x de nos percebermos a nós dentro dos olhos do outro, penso que a poesia nos abre a porta para nos entrarmos dessa maneira mais exata, onde ser é esse sentir cheio dessa respiração do que nos aproxima.”

(3.) “ Acredito na inesgotável fonte de possibilidades inerentes a isto de nos vivermos. Depois há é uma simpatia natural, algo que nos estende em conformidade, uma parte do corpo, um lugar de encontro que parece ir em determinado sentido.”
Pequena nota biográfica:

Rute Castro nasce em 1982, em Faro. Com a idade de catorze anos participa no prémio literário António Aleixo, recebendo o primeiro prémio entregue pela escritora Lídia Jorge. Em 2012 é finalista na competição Fnac Novos talentos de Literatura com o conto Sobre os passos que matam. Participa em revistas literárias, coletâneas e publica o seu primeiro livro de poesia, O Sangue Das Flores (Edições Artefacto, 2014) e recentemente publicou O som cardíaco com que me vive o silêncio (ed. Eufeme, 2019).

quinta-feira, 18 de abril de 2019

“Ephemeras“ de Inês Lourenço


Reencontrei na estante este “Ephemeras” de Inês Lourenço, editado em 2012, pela Companhia das Ilhas. São micro-histórias que roçam a poesia em prosa e/ou pequenas crónicas que mudam de ponto de vista com facilidade ou de certa forma inscontantes. Exercícios plenos de uma melancolia do pequeno detalhe e de caminhos sem destino.

Algumas passagens:
“As casas são o sítio inicial. Lugar de nascimento e de mortes. (p. 10)”;
“Nada de teorias da luz e do negro. Queres adormecer na seda da sombra sem autofagia das escolhas que eliminam a tua metade. (p.18)”;
“As escadas sobem-se ou descem-se, com toda a espécie de emoções ou cansaços. (p. 21)”;
“Aquele bombeiro tinha o nome de Orfeu. (p. 22)”;
“Apenas uma caixa de sapatos, de que já ninguém lembrava os sapatos. (p. 31)”.

Alguns textos são como rascunhos de ficção com desfechos invulgares, surpreendentes, irónicos, cruéis ou até excêntricos.

Inês Lourenço trabalha as palavras com rigor e sem medos, um raríssimo cuidado que não é habitual nos dias de hoje.



Vale sempre a pena percorrer a estante e reler o que já foi lido em tempos.

Ephemeras
Autora: Inês Lourenço
Editora: Companhia das Ilhas
N.º de páginas: 44
Ano de publicação: 2012
Dimensões: 110x150mm


A todos Boa Poesia!,
SN

segunda-feira, 15 de abril de 2019

O terceiro ciclo do magazine de poesia Eufeme

O magazine de poesia Eufeme em breve — o número 11—, vai iniciar um novo ciclo, o terceiro neste caso. Cada ciclo Eufeme é o espaço de tempo correspondente às cinco cores que têm sido capa, pela ordem: amarelo, vermelho, verde, azul e laranja, e cada cor corresponde a três meses por conseguinte cada ciclo Eufeme corresponde a 15 meses.

Neste terceiro ciclo haverá ligeiras alterações. O formato do magazine será ligeiramente mais pequeno que o anterior com as medidas de 145x200mm (o anterior media 147x210mm). As cores serão as mesmas seguindo a mesma ordem e o mesmo design da capa como tem sido habitual com a silhueta a dar o mote à leitura, mas a capa agora irá ter badanas que dará mais consistência. Terá também mais páginas que habitualmente. Os papéis do miolo e da capa serão igualmente novos.

No entanto tudo será como antes, poesia, poetas e mais poesia.

O leitor terá portanto um objecto/livro novo e também mais poesia para ler.

desejos a todos Boa Poesia!,
SN

terça-feira, 5 de março de 2019

capa de livro: «une saison en enfer» de Arthur Rimbaud

Alliance typographique (M.J. Poot & compagnie), Bruxelles 1873, 12,5x18,5cm, broché.

Uma raridade, a primeira edição de Une Saison en Enfer. Publicada numa reduzida tiragem. É importante por algumas razões, mas a mais importante de todas, a de ter sido publicada pelo próprio Rimbaud, um jovem poeta desconhecido de dezenove anos, na altura. A gráfica, preservou quase inteiramente a tiragem que foi esquecida na oficina — Arthur Rimbaud recebeu apenas uma dúzia de cópias disponíveis para seus amigos. Foi encontrada em 1901 por um bibliófilo que aproveitou cerca de 425 exemplares tendo destruído o resto danificado pela humidade.

… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

Sérgio Ninguém

sexta-feira, 1 de março de 2019

Ganhar sim, mas pouco* – Eufeme, magazine de poesia


A Eufeme nasceu de uma ideia poética muito simples e livre. Não nasceu com ambição, não a tem e nem pretende ter qualquer tipo de ambição. A única preocupação da Eufeme é a de publicar com o máximo rigor, isenção e qualidade obras de poesia. Não pretende ser um conglomerado editorial e nem sequer tem a ideia de produzir em massa.

A Eufeme é um projecto com o corpo todo permanentemente enfiado na falência e nem sequer se preocupa com esse estatuto. A Eufeme é apenas uma coisa ou uma ideia muito simples de poesia. Publica o que quer publicar, com a liberdade e o prazer que lhe conferem uma personalidade de certa forma irritante aos escravos voluntários ou à ditadura do dinheiro.

  

 



*frase de Mário Cesariny

… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

Sérgio Ninguém a 1 de Março de 2019

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

“A Construção da Morte” de Eduardo Quina


[Pequenos Exercícios sobre Os Passos em Volta]

edição de autor, Nov/2018

Este é o livro do número 23 pois foram impressos 23 exemplares (numerados e rubricados pelo autor) no dia 23 de Novembro de 2018: data em que o poeta Herberto Helder nasceu; e também o número de capítulos que o livro Os Passos em Volta de Herberto Helder contém. Não é apenas um detalhe, não há coincidência, aqui nota-se o cuidado que Eduardo Quina teve com a preparação e planeamento deste livro.

O livro é agrafado e não possui números de páginas, mas são 36 páginas de labor poético.

O título A Construção da Morte, para quem acompanha a poesia do Eduardo não é de estranhar, pois a morte é um tema bem presente na sua obra. Por exemplo no magazine de poesia Eufeme (em diversas edições) escreveu 18 poemas sob o título “[Começar a morrer]”, nos livros: Sombras Mortas Entre os Dedos (ed. Apuro, 2015); Corpo: Labirintos (ed. Licorne, 2015); Ausência (ed. Eufeme, 2017) e o mais recente Maligno (ed. Cosmorama Edições, 2018), todos eles abordam o tema morte; podemos ver a profundidade em que o poeta submerge nesse particular tema é no poema n.º 15 do livro Maligno (p. 26): «corpos sobrepostos, sem lugar/ ao erro./ cresce sobre os cadáveres um emaranhado/ de ervas secas: desolação/ nítida da falta de luz:/ a biografia da morte.// [abre-se a morte ao contágio.]».

Mas voltando à A Construção da Morte, na nota introdutória, onde o autor numa escrita não tanto objectiva mas um pouco hermética, explica ou introduz ao que vem com este livro. Nesta nota introdutória faz falta no entanto o nome de Herberto Helder, aliás quase não é mencionado sendo ele o autor de Os Passos em Volta que serviu de inspiração a Eduardo Quina. É apenas mencionado na epígrafe e no posfácio que foram retirados dois pequenos trechos do livro Photomaton & Vox.

Quanto aos poemas que compõem A Construção da Morte, que como já disse atrás são 23 tal como o livro Os Passos em Volta. O autor procura elementos, fragmentos e os temas dentro da narrativa poética de Herberto Helder e transforma e/ou experimenta fazer exercícios poéticos (como Eduardo Quina gosta de chamar aos seus poemas), colocando como é norma em itálico as palavras usadas por Herberto Helder em Os Passos em Volta. Vê-se harmonia, rigor e uma escrita bastante depurada ou limpa. Um belo exemplo é o poema Teoria das Cores (p. 11), onde Eduardo consegue manter o mistério em redor deste texto de HH, vejamos o poema: «um peixe emerge frágil/ líquido das palavras/ e espero impacientemente/ ao meditar sobre as razões da mudança:/ procura da essência ou do seu reverso// como captar o real? o que é a realidade?/ apenas e só a lei da metamorfose:/ um eu-outro contínuo/ enigmático/ nessa insídia do real:/ não há imitação».

Abordei este livro e também recomendo a quem o ler, ter ao lado o livro Os Passos em Volta de HH, não no sentido de comparação — pois não se está aqui para comparar nada —, mas para ver como é notório o esforço que Eduardo Quina colocou em prática ao escrever este A Construção da Morte — uma tarefa nada fácil, pois quando se trata de Herberto Helder, todos os cuidados são necessários.

Apesar de ser uma edição com uma tiragem muito pequena (23 exs.) — que o torna algo especial, um verdadeiro vestígio de poesia e um belíssimo exercício poético!



Sérgio Ninguém em 2019/02/07
… obrigado pela visita e boa poesia a todos!