quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Livro: “Morte de uma Estação” de Antonia Pozzi

Ouvi falar recentemente de alguns poetas italianos, entre eles estava Antonia Pozzi. Fiquei muito curioso por ler alguns poemas desta poetisa italiana que teve uma vida muito curta (13.feb.1912 a 3.dez.1938) mas deixou uma marca forte na poesia italiana.



Procurei se existiam alguns livros sobre a autora em português e encontrei este das edições Averno (“Morte de Uma Estação” Averno 044), com tradução de Inês Dias. 

Capa: Morte de Uma Estação, ed. Averno.


É um livro bilíngue (italiano e português) e foi impresso em fevereiro de 2012.
Graficamente este livro tem umas dimensões maravilhosas de 13x17,7cm, óptimo para se ter na mão, muito bem paginado e com uma tipografia excelente para a leitura. Simples e coeso na minha opinião.

O livro encontra-se muito bem dividido em 3 partes: Prefácio, Poemas e Posfácio.

A primeira parte: o prefácio de José Carlos Soares é muito importante pois é nos dado a conhecer (resumido claro) a curta vida de Antonia Pozzi até ao seu suicídio com apenas 26 anos de idade. A sua obra ficou praticamente inédita durante longos anos, sendo manipulada pelo pai (Roberto Pozzi).

A segunda parte: os poemas que se encontram em bilíngue, primeiro na língua materna da autora (italiano) seguido do português.
Os poemas são magníficos alguns reflectem uma “necessidade naturalista”, poemas como Pôr do Sol Inquieto, Ameaças de Temporal, Regresso ao Crepúsculo, etc.

MINACCE DI TEMPORALE

Al crepuscolo
l'arroganza chioccia dei passeri
a sforbiciare l'aquoso cielo
per inaffiare di pioggia
la mia stizza rinsecchita.


AMEAÇAS DE TEMPORAL

Ao crepúsculo
a arrogância rouca dos pássaros
a recortar o aquoso céu
para orvalhar de chuva
a minha cólera ressequida.

(p. 36-37 Ed. Averno “Morte de Uma Estação”)


Outros poemas como Novembro, Grito, Tempo, Precoce Outono ou Morte de uma Estação falam já de morte, de abandono, desespero, tristeza e sofrimento.

GRIDO

Non avere un Dio
non avere una tomba
non avere nulla di fermo
ma solo cose vive che sfuggono –
essere senza ieri
essere senza domani
ed accecassi nel nulla
– aiuto –
per la miseria
che non ha fine –

GRITO

Não ter um Deus
não ter um túmulo
não ter nada de certo
mas apenas coisas vivas que nos fogem –
existir sem ontem
existir sem amanhã
e cegar no vazio
– socorro –
pelo sofrimento
que não tem fim –

(p. 50-51 Ed. Averno “Morte de Uma Estação”)

Em todos eles eu encontrei uma escrita emotiva acima de tudo, por vezes filosófica talvez numa necessidade de catarse.

A terceira e última parte (em bilíngue): o posfácio é um balanço crítico de Antonia Pozzi (Antonia Pozzi. Un Bilancio Critico). E é precisamente aqui no posfácio que encontramos uma breve síntese da controvérsia que rodeia a sua obra. Por exemplo que as primeiras versões dos poemas conhecidos de Antonia Pozzi tiveram a intervenção do pai, ao “corrigi-los” e também tentativas de manipulação diversa.

Finalmente gostaria de dar os parabéns à editora Averno pela obra e pela coragem em traduzir uma obra destas em Portugal. Existe muito por fazer nas traduções de poesia em Portugal, existem poetas que nunca foram traduzidos e outros muito pouco.

Boa poesia a todos.