sábado, 1 de dezembro de 2018

Manuscritos de Fernando Pessoa

Para quem tem curiosidade em ver como era a caligrafia de Fernando Pessoa, podemos consultar o espólio de Fernando Pessoa online, disponibilizado pela Biblioteca Nacional de Portugal. É possível consultar diversos documentos entre os quais os poemas de Mensagem e O guardador de rebanhos, e também alguns cadernos de anotações.
Um bom local online para quem vive longe de Lisboa e gosta de Fernando Pessoa.


… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Livro “Pétalas Negras Ardem nos Teus Olhos” de Luís Falcão



“Pétalas Negras Ardem nos Teus Olhos”, o único livro publicado em vida por Luís Falcão em 2007 pela Assírio & Alvim. Rico em versos sucintos mas muito precisos, que com “uma fina poeira de gelo” (p.13) nos coloca no olhar do poeta, numa imagética singular, um certo lirismo que apela sobretudo ao mistério, ao abandono e ao mesmo tempo também ao silêncio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

ontem

*

ontem
a verdade atingiu-me
mesmo no meio da testa
tentei impedir o sangue de sair
mas
foi dor, daquelas que dói
e corrói
senti a cabeça inclinada
e o meu corpo vergado na vergonha
como uma parede torta e já em queda.
A minha intensidade negativa
de uma cor profunda e absolutamente negra,
não sei se saiu ou se ficou dentro

senti a verdade como uma pedra dura

fiquei uma grelha de esgoto
no chão
em pedaços
um puzzle desmanchado
e com falta de peças

estou novamente a ser negativo
e sem possibilidades...
tu que lês isto
resguarda-te de mim e
salva-te
aproveita a verdade e faz dela
um sabonete cheiroso
rasga estes versos e voa
porque o sentido para mim...
esse...
fugiu... esvaneceu... e...

PS. talvez um dia acabe este poema, ou até talvez o inicie de novo... a vida está cheia de poemas de merda.


SN

segunda-feira, 30 de julho de 2018

o silêncio

* à noite penso no silêncio em bocados de musgo que não falam — permaneces num vazio estreito — e tu. também não falas mas espreitas o silêncio que eu olho atentamente. não se espera pelo silêncio — procura-se por ele. SN

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Do púlpito…



Do púlpito, o homem e político fala e gesticula. Apressadamente e convincentemente. Omite as verdades e diz as mentiras que não parecem mentiras.

A mulher e ladra, no meio da multidão faz-se atenta, mas vai roubando, aqui e ali, as esperanças de algumas pessoas.

Ela é profissional na arte de roubar esperança. Ele, profissional na arte de dar falsas esperanças.
Juntos são uma máquina de devorar esperanças e sonhos. E juntos vivem felizes, numa casa construída pelo suor de muitos alguéns.

A vida é assim! — dizem muitos — consternados.


SN

terça-feira, 5 de junho de 2018

O Interrogatório




O senhor 0340 interroga o senhor 0223. O interrogador regista e organiza, um processo muito completo e detalhado. Insere portanto os dados num computador. Que, por sua vez, seguem por um cabo ou por wi-fi. Não se sabe, verdadeiramente para onde vão, nem se tem desvios ou atalhos.

Talvez na vida, nunca, o interrogado se tenha sentido tão vulnerável. Pergunta o porquê do interrogatório. Ao que o interrogador lhe responde que são as normas, as regras normais do funcionamento da coisa.

O interrogado ainda pergunta se era possível omitir os dados pessoais, ao que o interrogador responde prontamente — claro que não!, sem isso é impossível a coisa sobreviver. É, pois, necessário saber tudo acerca de si.

Uma linha, um cabo, um ecrã. A vida projectada em milhares de locais e de olhos colocados com a curiosidade de manter a coisa rentável.
A vida é um interrogatório infinito onde ninguém sabe para onde vai e muito menos para que serve.

SN

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Manuscrito de Arthur Rimbaud

Le dormeur du val é um manuscrito de Arthur Rimbaud (1854-1891).
Nesta fotografia vê-se perfeitamente como era a letra de Rimbaud na sua época. Uma letra de fazer inveja até nos dias de hoje. A sua assinatura no canto inferior direito da folha e o detalhe da data à esquerda.


Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ea/Photo_manuscrit_Le_dormeur_du_Val.JPG
via Wikimedia Commons



[original em francês]
Le dormeur du val

C'est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D'argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c'est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

Arthur Rimbaud


… obrigado pela visita e boa poesia a todos!