Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

“A Construção da Morte” de Eduardo Quina


[Pequenos Exercícios sobre Os Passos em Volta]

edição de autor, Nov/2018

Este é o livro do número 23 pois foram impressos 23 exemplares (numerados e rubricados pelo autor) no dia 23 de Novembro de 2018: data em que o poeta Herberto Helder nasceu; e também o número de capítulos que o livro Os Passos em Volta de Herberto Helder contém. Não é apenas um detalhe, não há coincidência, aqui nota-se o cuidado que Eduardo Quina teve com a preparação e planeamento deste livro.

O livro é agrafado e não possui números de páginas, mas são 36 páginas de labor poético.

O título A Construção da Morte, para quem acompanha a poesia do Eduardo não é de estranhar, pois a morte é um tema bem presente na sua obra. Por exemplo no magazine de poesia Eufeme (em diversas edições) escreveu 18 poemas sob o título “[Começar a morrer]”, nos livros: Sombras Mortas Entre os Dedos (ed. Apuro, 2015); Corpo: Labirintos (ed. Licorne, 2015); Ausência (ed. Eufeme, 2017) e o mais recente Maligno (ed. Cosmorama Edições, 2018), todos eles abordam o tema morte; podemos ver a profundidade em que o poeta submerge nesse particular tema é no poema n.º 15 do livro Maligno (p. 26): «corpos sobrepostos, sem lugar/ ao erro./ cresce sobre os cadáveres um emaranhado/ de ervas secas: desolação/ nítida da falta de luz:/ a biografia da morte.// [abre-se a morte ao contágio.]».

Mas voltando à A Construção da Morte, na nota introdutória, onde o autor numa escrita não tanto objectiva mas um pouco hermética, explica ou introduz ao que vem com este livro. Nesta nota introdutória faz falta no entanto o nome de Herberto Helder, aliás quase não é mencionado sendo ele o autor de Os Passos em Volta que serviu de inspiração a Eduardo Quina. É apenas mencionado na epígrafe e no posfácio que foram retirados dois pequenos trechos do livro Photomaton & Vox.

Quanto aos poemas que compõem A Construção da Morte, que como já disse atrás são 23 tal como o livro Os Passos em Volta. O autor procura elementos, fragmentos e os temas dentro da narrativa poética de Herberto Helder e transforma e/ou experimenta fazer exercícios poéticos (como Eduardo Quina gosta de chamar aos seus poemas), colocando como é norma em itálico as palavras usadas por Herberto Helder em Os Passos em Volta. Vê-se harmonia, rigor e uma escrita bastante depurada ou limpa. Um belo exemplo é o poema Teoria das Cores (p. 11), onde Eduardo consegue manter o mistério em redor deste texto de HH, vejamos o poema: «um peixe emerge frágil/ líquido das palavras/ e espero impacientemente/ ao meditar sobre as razões da mudança:/ procura da essência ou do seu reverso// como captar o real? o que é a realidade?/ apenas e só a lei da metamorfose:/ um eu-outro contínuo/ enigmático/ nessa insídia do real:/ não há imitação».

Abordei este livro e também recomendo a quem o ler, ter ao lado o livro Os Passos em Volta de HH, não no sentido de comparação — pois não se está aqui para comparar nada —, mas para ver como é notório o esforço que Eduardo Quina colocou em prática ao escrever este A Construção da Morte — uma tarefa nada fácil, pois quando se trata de Herberto Helder, todos os cuidados são necessários.

Apesar de ser uma edição com uma tiragem muito pequena (23 exs.) — que o torna algo especial, um verdadeiro vestígio de poesia e um belíssimo exercício poético!



Sérgio Ninguém em 2019/02/07
… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Capa de livro: "Colher na Boca"

Lembrar e recordar é nunca esquecer, por isso, lembro esta capa do livro "Colher na Boca" de Herberto Helder, que é um vestígio muito precioso de poesia. Um livro editado pela ed. Ática, Lisboa, 1961.




um breve trecho da obra:

«Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
— Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?»

por Herberto Helder


… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

sábado, 12 de janeiro de 2019

Eufeme n.º 10

Eufeme n.º 10 (Jan/Mar 2019). Na verdade são onze se contarmos com a número Zero. A aventura começou em Julho de 2016 com a Eufeme Zero. Muita poesia, muitos poetas e traduções. Neste número 10 conta com a participação de:

Amalia Bautista*, António Ferra, Eduardo Quina, Isabel Cristina Pires, Jorge Arrimar, Jorge M. Telhas, Liliana S. Ribeiro, Maria Afonso e Rute Castro.
* tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho.


E a nossa Khroniká com o título "A face oculta: a gaveta dos poetas", autoria de Rui Tinoco.

Fica disponível a partir do dia 21 de Janeiro (7€), pedidos através de:

Eufeme online
Livraria Poetria (Porto)
Livraria Flâneur (Porto)



… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Vestígios negros de um passado absurdo

Dois vestígios negros, dois relatórios escritos pela PIDE sobre Herberto Helder e sobre o livro "A apresentação do Rosto" do mesmo autor.
Em baixo os respectivos relatórios, onde podem ler até onde ia a estupidez e a burrice de uma polícia política.

«inimigo das Instituições, com nítidas características comunistas…»



«…escrita em linguagem surreal e hermética…»



… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

sábado, 1 de dezembro de 2018

Manuscritos de Fernando Pessoa

Para quem tem curiosidade em ver como era a caligrafia de Fernando Pessoa, podemos consultar o espólio de Fernando Pessoa online, disponibilizado pela Biblioteca Nacional de Portugal. É possível consultar diversos documentos entre os quais os poemas de Mensagem e O guardador de rebanhos, e também alguns cadernos de anotações.
Um bom local online para quem vive longe de Lisboa e gosta de Fernando Pessoa.


… obrigado pela visita e boa poesia a todos!

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O Livro “Pétalas Negras Ardem nos Teus Olhos” de Luís Falcão



“Pétalas Negras Ardem nos Teus Olhos”, o único livro publicado em vida por Luís Falcão em 2007 pela Assírio & Alvim. Rico em versos sucintos mas muito precisos, que com “uma fina poeira de gelo” (p.13) nos coloca no olhar do poeta, numa imagética singular, um certo lirismo que apela sobretudo ao mistério, ao abandono e ao mesmo tempo também ao silêncio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

ontem

*

ontem
a verdade atingiu-me
mesmo no meio da testa
tentei impedir o sangue de sair
mas
foi dor, daquelas que dói
e corrói
senti a cabeça inclinada
e o meu corpo vergado na vergonha
como uma parede torta e já em queda.
A minha intensidade negativa
de uma cor profunda e absolutamente negra,
não sei se saiu ou se ficou dentro

senti a verdade como uma pedra dura

fiquei uma grelha de esgoto
no chão
em pedaços
um puzzle desmanchado
e com falta de peças

estou novamente a ser negativo
e sem possibilidades...
tu que lês isto
resguarda-te de mim e
salva-te
aproveita a verdade e faz dela
um sabonete cheiroso
rasga estes versos e voa
porque o sentido para mim...
esse...
fugiu... esvaneceu... e...

PS. talvez um dia acabe este poema, ou até talvez o inicie de novo... a vida está cheia de poemas de merda.


SN